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A América poética dos "misfits" e das naves espaciais

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.07.10

 

Terminei um post recente a dizer que a linguagem do cinema consegue revelar mais do que a linguagem escrita. Como é que entenderíamos, por exemplo, o que o Pedro aqui nos diz dos inadapatados de uma forma tão poética, se não tivéssemos visto o filme?

Já coloquei a navegar neste rio os misfits da América, da América actual, onde não há espaço para encontrar um papel definido e viver uma história tranquila. O protagonista desse vale é um cowboy fora da época e da sua lógica intrínseca, já não tem território. Aliás, já não há lugar para essa liberdade de escapar à voracidade dos subúrbios, das habitações, dos carros, dos ruídos, do consumo, nem escapar à lógica do dinheiro, da droga e do sexo, numa alienação decadente.

N’ Os Inadaptados de John Huston há ainda uma ténue esperança, mesmo que aliada ao desencanto e à tristeza. Mas ainda não é a violência do vazio existencial desse vale invadido pelas pessoas. N’ Os Inadaptados podem estar a despedir-se, magnífica visão poética do Pedro, mas ainda é de liberdade e de espaço livre que estamos a falar. Os cavalos selvagens, símbolo maior dessa liberdade, são soltos das cordas que os prendem. A cena em que a rapariga começa a gritar, naquele terreno deserto e muito branco, onde Huston gosta de ver as suas personagens, é mesmo arrepiante. É talvez a cena mais forte do filme. N’ Os Inadaptados, como disse, há gritos, olhares tristes, pressente-se a solidão, mas ainda há espaço para esse grito e esse olhar.

Hoje, nesse vale, é o vazio, plana-se, sem consistência física, numa realidade que não se aceita e onde não se cabe. Por isso o protagonista fica fascinado com o cenário da equipa de filmagens: eu até me adaptava a este trabalho… sempre é mais fácil ser personagem do que viver um papel na vida real.

 

É certo que, olhando para trás, Marilyn sempre me pareceu uma personagem de filme. E se fosse mesmo honesta comigo própria, admitiria também sentir por vezes vontade de escapar à vida real e refugiar-me nos cenários poéticos dos filmes dos anos 60. Poderia ser até num filme de ficção científica, n’ O Dia em Que a Terra Parou, mas no original de 1951, não no remake. Contracenar com a Patricia Neal e com o actor inglês, Michael Rennie, que entra tão bem na pele de visitante extra-terrestre… O que eu gosto deste filme, vá-se lá saber porquê!

Aqui se prova que a tecnologia não é suficiente para conseguir uma atmosfera e construir uma obra de arte. A tecnologia - e mesmo a verosimilhança dos acontecimentos, e não me estou a referir à visita extra-terrestre -, não chega para criar um filme com esta frescura do olhar, esta atmosfera, e isso ficou bem visível no remake.

Já repararam aqui no cenário nocturno? As sombras, os espaços, o silêncio, a tranquilidade? E também só possível numa visão de futuro muito optimista, não acham? Onde é que hoje encontramos, numa cidade, esse silêncio e essas noites misteriosas e tranquilas, tão poéticas? E onde é que hoje deixariam o robô em paz, sem tentar invadir os seus segredos e testar os seus poderes? Sem invadir, logo no início, a nave estacionada no jardim público? Impossível…

De onde se conclui facilmente que os nossos são tempos bárbaros em comparação com os anos 50 (que, ainda por cima, é a década do cinema preferida do Pedro). Que só progredimos em tecnologia, mas não em poesia, em humanidade, em respeito pelo espaço de cada um. Pensando bem, não somos hoje muito diferentes de uma qualquer tribo bélica do período medieval. Querem ver? Os militares colocariam um perímetro de segurança muito maior do que aquele que vemos no filme, os jornalistas plantar-se-iam em volta da nave como moscas, com os seus microfones ligados todo o dia e toda a noite, debitando banalidades para as respectivas televisões, e ouvir-se-ia o barulho ensurdecedor de helicópteros como vespões assassinos a rondar o lugar. Além disso, a protagonista seria uma cínica oportunista que não conseguiria perceber a mensagem do extra-terrestre, entregando-o aos militares, e o filho, um miúdo caprichoso e egocêntrico, incapaz de qualquer empatia. Bem, se tentarmos seguir mesmo o que é plausível, esse encontro com o extra-terrestre nunca se poderia efectuar assim sem consequências imprevisíveis e fatais: contágio mútuo de um qualquer vírus fatal, por exemplo.

Neste cenário poético (sim, Robert Wise antecipa, a meu ver, a atmosfera poética dos anos 60), é ainda possível respirar sossegadamente durante uns tempos, ainda que breves. E contracenar com personagens que sentem, estão vivas, acordadas. Ainda conheci essa atmosfera, e é dessa atmosfera poética que mais sinto falta. Restam-me os filmes… já não é mau. E, afinal, mais vale esta fuga, estes intervalos, do que a que nos propõem hoje: consumo de entretenimentos vazios e sem alma, conversas estéreis e de circunstância, ruídos vários de gente ansiosa e hiperactiva, correrias sem objectivo definido, fogos-fátuos em cenários plastificados.

 

 

 

Patricia Neal: parece que este único Patricia Neal aqui a navegar, antecipou em pouco mais de um mês a sua despedida. Mas este será, para mim, o seu papel de sempre. Desde que o vi pela primeira vez que ofuscou o seu Vontade Indómita (papel brilhante e tão sensual) e o seu Breakfast at Tiffany's (elegante e cínica). É que aqui, nesse Dia em que a Terra realmente parou, Patricia é essa mulher calma e segura do Bem e do Mal, do certo e do errado, como se saber distingui-los fosse a coisa mais natural deste mundo, mas não é! São cada vez mais raras as pessoas que se movem neste mundo e se relacionam assim, neste mundo, com os outros seus semelhantes, com esta simplicidade e honestidade. Cada vez mais raras. Talvez por isso esta personagem feminina me tenha fascinado tanto. Tem a lucidez e a sensibilidade suficientemente afinadas para ver realmente que o namorado tinha as prioridades trocadas. Tratou-se de escolher o lado certo, o do homem que se tinha colocado numa posição vulnerável para avisar os terrestres. São estes papéis que agora mais me fascinam: pessoas simples, que agem de forma discreta, correcta e responsável, diríamos normalíssimas, mas que afinal, são mais do que extraordinárias. E, como disse, cada vez mais raras.

(Esta é uma simples homenagem de um rio... a 9 de Agosto)

 

 

 

 

 

 

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publicado às 00:34

Razões que a razão desconhece - 2

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.06.10

 

Não o vi no cinema, esperei pelo DVD, ou que aparecesse nalgum dos TVCine. Sim, foi assim com este Benjamin Button, a que resisti até a curiosidade vencer. Razões desta resistência não as consigo identificar. Tinha registado dele as imagens em sépia, aquele rapazinho-velho entre talas, a erguer-se e a tentar caminhar. Isso foi na nomeação para os óscares de há 2 anos. Dos filmes nomeados destacam sempre a tecnologia e não a mensagem, a densidade da mensagem, a poesia da mensagem. E este filme revelou-se como uma das minhas mais incríveis descobertas!

 

O primeiro impacto: as pessoas comuns que são tudo menos comuns. A forma como valorizam o essencial. A forma como nunca ficam indiferentes aos outros que com eles se cruzam neste mundo, aceitando sabiamente o que a vida lhes vai revelando. Não é resignação, é outra coisa. Também não é propriamente rendição, é mais aceitação filosófica e tentar aproveitar o melhor de todas as possibilidades. Será essa a aprendizagem de Benjamin Button.

Outro impacto: a incrível poesia que o filme respira, levemente humorística (o raio que insiste em ser atraído por aquele homenzinho sobrevivente; o lado sombrio de um colega de trabalho no rebocador, chamado Grimm; o capitão que insistiu em ser quem era, um artista, não se conformando com o papel que o pai lhe impusera) e intensamente filosófica (a lealdade da amizade, a descoberta do amor, a superação da revolta, a aceitação do inevitável, a rendição final).

 

Este filme vem na linha poética de filmes dos anos 60, mas esta já é uma visão pessoal. Já me referi aqui a um filme que me deixou hipnotizada pela sua simplicidade poética: To Kill a Mockingbird. De como estes filmes dos anos 60 iniciam uma nova sensibilidade em cinema e que estarão na base de um Eduardo Mãos de Tesoura do Tim Burton, ou de um Forrest Gump, ou de um Benjamin Button. Uma nova sensibilidade na câmara, nos planos, nas personagens e nas sequências, na acção, nos diálogos e nos silêncios. Estes filmes vivem muito de silêncios. E as frases são de uma enorme densidade.

Sim, os silêncios. Que aqui são silêncios vivos, sentimo-los como uma atmosfera que vibra. O segredo: a autenticidade das personagens, mesmo que a verosimilhança seja apenas a da própria vida, passar pela vida e sentir que não se viveu, ou seguir um sonho e ter de o abandonar, ou a possibilidade de se redimir de um abandono, ou procurar recomeçar tudo de novo.

 

Benjamin não foge dos seus sentimentos, não foge do sofrimento que os acompanha, e mesmo que a sua vida guarde essa armadilha da solidão e do desencontro, na verdade ele vive-a no encontro e na comunicação. Aceita-a filosoficamente, aprende com as experiências e as pessoas que a vida lhe traz até à casa a que chama a sua casa.

Esta foi a grande aprendizagem transmitida pela mãe. Esta é a sua mãe e não poderia ter sido outra. Verá mais tarde uma fotografia de uma mulher lindíssima. Histórias paralelas que soam tristes e longínquas. Libertar-se-á de todas as histórias como uma doce despedida. 

 

Sim, se pudesse sintetizar este filme, escolheria: doces despedidas. São todas despedidas doces, nem demasiado dramáticas nem demasiado distantes: deixar-se ir.

 

Ainda há muito a dizer da descoberta deste filme. Mas fica para amanhã...

 

 

Ainda sobre Benjamin que alguns seus próximos lhe dizem ser muito especial... lembrou-me vagamente outra personagem, o Larry d' O Fio da Navalha de Somerset Maugham. Por outra razão que a razão desconhece. Ambos são especiais no sentido de diferentes na forma como vivem e interagem com os seus semelhantes, de uma forma sempre amável com todos mas autónoma, que não lhes pesa. Só que Larry é impermeável à influência de outros a não ser à de um mestre espiritual que conhece na Índia salvo erro, e Benjamin é completamente permeável às aprendizagens e às experiências. É aliás isso mesmo que o torna tão querido pelos outros. É isso também que o leva a entender os outros como se estivesse na sua pele, e aqui lembro-me de Acticus a explicar à filha de como se adquire a empatia, essa capacidade necessária para entender e conhecer os nossos semelhantes, aqui referindo-se a Boo.

 

Jogar com o tempo é sempre atractivo para criaturas que vivem obcecadas em travá-lo a todo o custo. A recente obsessão civilizacional, tudo controlar, o prazo de validade e a aparência de juventude. Será assim com a bailarina, até porque a carreira de uma bailarina é muito curta, como Benjamin lhe diz para a consolar. Quando se perde a linha nunca mais se recupera, é a frase terrível, mas uma manhã ela promete-lhe deixar de ter pena de si própria.

 

A obsessão pelo controle é muito português, sobretudo o controle de outras criaturas, penso até que essa obsessão estará na origem de muitos desvios de comportamento e de muita agressividade oculta nas relações interpessoais. Há demasiada interferência na vida uns dos outros. Mesmo nos locais de trabalho, sente-se esta necessidade de controlar outros, exercer o seu poder, e sobretudo mostrar a outros que se é poderoso ainda que numa ínfima escala ou que, no final de contas, se trate de um poder alucinado. 

A origem desta lógica doentia? A relação maternal, demasiado protectora? Não me parece que seja explicação suficiente, mas a protecção esconde realmente a necessidade de controlar a criança, não a deixa crescer, respirar à vontade, sufoca, cria dependências. É uma forma de impedir a autonomia e que dá sempre em revoltas estéreis ou rebeldias inconsequentes. Também esconde o desejo oculto de parar o tempo e manter-se no mesmo papel de poder sobre as criaturinhas.

Já me estou a desviar claramente do Benjamin mas não resisti a deixar-me levar por esta hipótese de explicação possível para a grande incidência de perturbações psiquiátricas na população portuguesa, o tema fascina-me. E esta ideia do controle não andará muito longe de uma explicação possível. Afinal, não é um dos países com mais telemóveis por habitante? E não vemos nós os nossos semelhantes pendurados ao telemóvel a toda a hora?

Outra razão que pode estar relacionada (ou não) com a necessidade de controle é ser um povo muito territorial, muito cioso do seu quinhão, da sua propriedade, mesmo que isso o impeça de se mover ou mesmo que isso o obrigue a voltar. Quando os entrevistam lá fora invariavelmente surge o termo saudade, como um sentir falta do seu lugar, da família, dos amigos.

 

Voltando ao Benjamin, amar a sua família e os amigos não o impede de dar a volta ao mundo e estar receptivo ao que a vida lhe traz, uma nova família e novos amigos (as pessoas que vêm morar nos quartos alugados, os colegas de trabalho no rebocador, a mulher inglesa que conhece num hotel em Murmansk). Aqui tudo parece natural, fluir, sem interrupções de sentido, nem fracturas na sua base, mesmo que os bem-amados partam, alguns subitamente, as tais doces despedidas. E mesmo nessa despedida tão difícil, porque surge da necessidade de libertar a mulher e a criança de mais um peso, um velho-criança, acontece porque tem de acontecer.

 

A construção da narrativa é também engenhosa, um narrador duplo: Benjamin no diário, e a filha, que o lê a uma mãe próxima da doce despedida final.

Talvez Benjamin me venha revelar mais alguma razão oculta para me ter impressionado e comovido. As palavras não são suficientes para as revelações mais interessantes. Sabemos isso mas ainda não inventámos melhor forma de comunicar. Bem, o cinema já é uma melhor forma de comunicar, não é?

 

 

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publicado às 22:03

A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

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publicado às 01:57

O valor intrínseco de cada indivíduo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.10.08

 

Um grupo de vadios, inadaptados ou excluídos (como agora estranhamente se diz), uma zona de fábricas de conserva abandonadas, uma casa de meninas onde diversos espécimens vão dar à costa, um rebelde estudioso de biologia marinha em regime independente, que anda a preparar um livro que nunca termina... John Huston como Narrador... e tudo filmado em estúdio... Mais um produto mágico, uma síntese feliz... Cannery Row...

John Huston, que sempre compreendeu os inadaptados, aqui a enlevar-se com o texto magnífico de John Steinbeck.

 

Se observarmos este grupo de vadios vemos que revela qualidades que dificilmente encontramos nos socialmente adaptados. Não acreditam? Afecto genuíno, lealdade, amizade, protecção do mais frágil, coesão de grupo. Ainda que os seus métodos sejam... enfim, muito discutíveis.

Revelam, além disso, uma surpreendente capacidade de organização: passam a vida a angariar uns tostões em preparação de festas e nem precisam de grandes razões para festejar. O resultados dessas festas é invariavelmente uma bebedeira monumental e a destruição da casa-laboratório do Doc...

Este grupo de vadios, além destas qualidades tão mal encaminhadas, pratica ginástica matinal (muito aldrabada) e ainda programa de vez em quando uns jogos de baseball com as meninas da Casa.

Ah, e faltam aqui duas personagens importantíssimas para completar a história: o Visionário e a Rapariga. É até com eles que a história começa: a Rapariga, de mala na mão, chapelinho na cabeça e longo casaco (anos 40), surge naquele lugar improvável e vê, numa rocha à beira-mar, um saco de papel. Aproxima-se. Pela sofreguidão com que pega num pão vemos que vem esfomeada. O Visionário aborda-a. A Rapariga atrapalha-se e volta a colocar o pão no saco, constrangida. O Visionário então diz-lhe esta coisa extraordinária, que Deus cuida dele, e que coma à vontade.

Só mais tarde a Rapariga, que é muito observadora, verá que Deus é o Doc que, subrepticiamente, coloca lá os sacos para o Visionário.

Entretanto, a Rapariga, que não encontra trabalho por ali em lado nenhum, nem mesmo no único café, acabará por ir parar à Casa das Meninas. Inicialmente relutante. Não parece talhada para aquele papel. A Madame, consciente disso, desafiará o Doc a encaminhá-la para outra solução.

 

Cenas fenomenais:

- A preparação do Doc antes de ir jantar com a Rapariga, em que terá de voltar a casa vestir-se a rigor para não contrastar com ela;

- Toda a cena do jantar a dois, descrita e acompanhada pela voz encantatória de John Huston;

- A dança acrobática (loucos anos 40) do Doc e da Rapariga, esta vestida de Pastorinha (para estimular as fantasias dos visitantes);

- A preparação da festa para o Doc, pelo nosso grupo, que inclui uma verdadeira "caça às rãs" para vender e angariar os preciosos tostões;

- O jogo de baseball, vadios e meninas, em que o Visionário revela todo o seu talento para o desporto;

- Os dilemas éticos de Hazel, o vadio mais ingénuo, o mais generoso também, e o mais protegido pelo grupo; e a sua terrível decisão-limite, para ajudar um amigo em sofrimento...

 

Para chegar à ideia que dá razão de ser ao título, "o valor intrínseco de cada indivíduo", ainda preciso de pedalar mais um pouco. Agradeço desde já a paciência dos viajantes que toleram as minhas interrupções... Às vezes inicio caminhos a pique para os quais não tenho o fôlego necessário... pelo menos para os trepar de uma só vez...

 

Estes Vadios não incomodam ninguém. E como diz a Madame à Rapariga, não gostam de falar do passado. Se tentarmos ser objectivos, veremos que há incluídos e adaptados a fazer mais estragos sociais do que estes Rapazes (the boys). John Steinbeck (e também John Huston) olham a vadiagem sem qualquer interferência moralista, apenas como um facto, uma realidade.

Quando conseguirmos olhar cada indivíduo pelo seu valor intrínseco, pela sua própria existência, esta distinção incluídos-excluídos nem se coloca. Todos serão incluídos, pelo simples facto de existirem. Mas o facto de existirem não obriga ninguém a seguir os passos miméticos de uma sociedade que até se pode considerar, no mínimo, doente e decadente. Porque numa sociedade saudável, ou que disso procura aproximar-se, cada indivíduo será respeitado por si mesmo. E ao ser respeitado por si mesmo, mais facilmente encontrará o seu lugar e o seu percurso natural. Não haverá lugar para moralismos, paternalismos, imposições, porque já não farão sentido.

 

Mas há em Cannery Row outro ângulo interessante: o valor responsabilidade. O Doc sente-se responsável pelo Visionário. Ninguém precisa de lho lembrar. Assume essa responsabilidade como um valor próprio da sua natureza. E também em relação à Rapariga, o Doc descobre a seu tempo, que ela é muito mais importante na sua vida do que teria desejado no início. É ultrapassado pelos acontecimentos. Quando ganha coragem para lho confessar, vê-a distante, implacável. E  percebe dolorosamente que a perdeu. E que há erros na vida que simplesmente não conseguimos consertar.

A conversa na Caldeira (a nova habitação da Rapariga, que agora já trabalha no café), é verdadeiramente comovente. Claro que só mesmo a intervenção de alguém como Hazel poderá compor este desencontro. Só alguém com uma infinita ingenuidade poderá descobrir a solução-limite para o sofrimento do Doc. A Rapariga tinha-lhe dito que lhe levaria uma sopa se estivesse doente ou com um braço partido. O destino do Doc fica inscrito nestas palavras casuais da Rapariga.

Mas voltando ao valor "responsabilidade pelo amigo": o Doc mal sabe tomar conta de si próprio! É um cientista autodidacta e rebelde, que vive sozinho numa casa-laboratório rodeado de espécimens marinhos. E no entanto... cuidará do amigo até ao fim. É mais do que poderemos encontrar na sociedade socialmente organizada, não acham?

Mas trata-se de John Steinbeck! O autor d' As Vinhas da Ira que John Ford traduziu para a linguagem do Cinema naquele impossível preto e branco, naquela atmosfera única! E o autor, igualmente, de um dos livros mais perturbadores que eu já li: A um Deus Desconhecido. Alguém me sabe dizer se já houve alguém a tentar traduzi-lo para linguagem do Cinema? Dava um filme mágico!

 

 

 

Obs.: É deste filme uma das minhas lines preferidas. Depois da dança acrobática, a Rapariga que é uma fanática de baseball, fala dessa época de glória do Doc quando era uma estrela do baseball, não entendendo porque largou tudo assim, repentinamente, e deixa cair no meio da conversa o nome Louis Delano. O Doc senta-se no sofá e diz incrédulo e escandalizado: Eih! Louis Delano!? Quem tu foste logo escolher para ser o teu herói!? É uma das lines que utilizo frequentemente sempre que vejo alguém ser colocado num qualquer pedestal sem qualquer mérito próprio.

 

 

 

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publicado às 17:34

A trágica poesia dos "misfits"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.07.07

 

Down in the Valley de David Jacobson com o Edward Norton surgiu-nos apenas em DVD.

 

A metáfora deste espaço-tempo estranho em que as pessoas se movimentam de forma vazia de sentido, em que as pessoas "dificilmente se assemelham a seres humanos".

 

Já não há um espaço-tempo para viver, realmente. Mesmo com a dureza de outros tempos. Já não há um espaço-tempo de alguma liberdade humana. É quase claustrofóbico. Casas amontoadas no vale e pelas colinas, a construção desenfreada, vidas em função do consumo, de objectos, experiências, sensações, a total distracção de si próprios e dos próximos. O dinheiro como "a fonte de toda a confusão" como diz o cowboy numa das cenas cortadas.

 

A cena mais poética e filosófica do filme é, para mim, a do ensaio do filme de época, sobretudo a cena também cortada: "Pode-se viver a fazer isto?... Eu até tinha qualidades..." Fora do tempo-espaço, nesse outro tempo-espaço possível. Com a rapariga e o irmão mais novo dela, uma família.

 

O cavalo, as colinas ainda livres... Há qualquer coisa de pioneiro ou de índio neste espaço-tempo imaginário. A fractura na alma americana que ainda está aberta, na trágica poesia dos misfits. E no mundo adolescente onde ainda é possível o sonho límpido e honesto. Mas cada vez mais breve e fugaz.

 

 

 

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publicado às 17:35


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  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D